Carregando...
 

Aula 11 9 de maio de 2019 noite

Sociologia da Educação I 2019103 Noite prof Elie Ghanem

Aula 11 9 de maio de 2019 Educação escolar e juventude


  • Panelão
Indicação quanto à Declaração Universal dos Direitos Humanos (10 de dezembro de 1948) https://nacoesunidas.org/direitoshumanos/declaracao/

Conversa sobre a viagem a Matinhos (UFPR Litoral)

Ajustes quanto ao calendário de aulas

- Leitura individual prévia

DUBET, François. Quando o sociólogo quer saber o que é ser professor: entrevista com François Dubet. São Paulo, Revista Brasileira de Educação, n. 5, maio/ago. 1997, p. 222-231 (Galerias de arquivos: DUBETsociologoProfessor1997). Disponível em: http://www.uff.br/observatoriojovem/sites/default/files/documentos/rbde05_6_19_angelina_e_marilia.pdf

Perguntas das panelinhas a partir de Dubet

Esquema do texto

O sociólogo François Dubet reflete sobre a sua experiência de um ano como professor de história e geografia em um colégio da periferia de Bordeaux, França.

Professores insistiam muito sobre as dificuldades da profissão, a impossibilidade de trabalhar, a queda da nível dos alunos etc.

Durante uma intervenção sociológica com um grupo de professores, encontrou duas professoras deixaram o grupo. Uma delas escreveu uma carta criticando-o por não ter lecionado, ser um “intelectual” e ter uma imagem abstrata dos problemas.

Assumiu uma classe de cinquième, 2º ginasial (que começa após os cinco anos de escola elementar), com crianças de 13/14 anos, em um colégio popular, bastante difícil em que o nível dos alunos é baixo.

Após duas semanas, estava completamente envolvido com o papel e não era de maneira alguma um sociólogo.

1ª surpresa: Os alunos não estão “naturalmente” dispostos a fazer o papel de aluno. A situação escolar é definida pelos alunos como uma situação, não de hostilidade, mas de resistência ao professor. Não escutam e nem trabalham espontaneamente, eles se aborrecem ou fazem outra coisa.

2ª surpresa: é preciso ocupar constantemente os alunos. Não fingem que estão ouvindo, sonhando com outra coisa e sem fazer barulho. Se você não os ocupa com alguma coisa, eles falam. É extremamente cansativo dar aula já que é necessário a toda hora dar tarefas, seduzir, ameaçar, falar (...)

Talvez pudesse dizer que sentia dificuldade porque seu status social o permitia sem ter o sentimento de vergonha. Pode ser mais duro para um professor iniciante.

Os alunos eram sensíveis ao fato de Dubet se interessar por eles como pessoas (falar com eles, lembrar de suas notas, de suas histórias).
Havia professores muito fortes, davam boas aulas. Havia outros que visivelmente não conseguiam. Alguns tinham medo de entrar na sala e não era um colégio violento. Não havia agressões, não havia insultos mas era uma provação fazê-los trabalhar, ouvir e não fazer barulho.

Numa sala de professores, nunca se fala disso, todo mundo parece ser um bom professor. Mesmo que se vissem colegas chorando.

Cada vez que se entra na sala, é preciso reconstruir a relação, lembrar as regras do jogo, reinteressá-los, ameaçar, recompensar (...)

Os alunos não querem jogar o jogo e é muito difícil porque significa subtemer à prova suas personalidades. Experimentou charme e sedução. Experiência muito positiva quando funciona. Quando não funciona, desespera.

Fez reinar o terror durante algumas semanas e depois relaxou. Pensou que podia jogar com a sedução intelectual, falando bem e sabendo mais coisas do que eles. Nenhum efeito. Foi preciso mobilizar muitos registros, sedução pessoal, ameaças, disciplina.

O “golpe de estado” é um fracasso pedagógico e moral, mas permitiu fixar uma ordem bastante estúpida a partir da qual pode tentar controlar uma relação pouco regulada. Transformar adolescentes em alunos quando eles não têm vontade de se tornar alunos.

“Somos obrigados a dar aula a um aluno teórico, um aluno médio que não existe, tendo de certa forma o sentimento de que vamos deixar um pouco de lado os bons alunos, porque existem, e que vamos deixar de lado os maus alunos.”

Há alunos que, depois de dois meses, “entraram em greve”, tiravam zero em todas as provas, não faziam nada, eram muito gentis mas tinham decidido que não trabalhariam.

Os alunos não entram completamente no jogo. Eles permanecem nos seus problemas de adolescência, de amor, de amizade e, mesmo se alunos queiram, individualmente, estabelecer relações com os professores, coletivamente, eles não querem tê-las.

O programa é feito para um aluno cujo pai e cuja mãe são pelos menos professores de filosofia e de história. Supõe que os alunos que cumpriram este programa adquiriram completamente os dos anos anteriores.

Muitos jogam a toalha: fingem dar aula para alunos que fingem ouvir.

Os alunos têm performances desiguais. Explicam-lhes que maus resultados é porque não trabalham bastante. Isto nem sempre é verdadeiro. É por eles terem dificuldades de outra ordem, porque isto não interessa para eles (...) Nunca se lhes dá realmente os meios de compreender os que lhes acontece. Nunca se permite suas próprias explicações ou que tomem realmente em mãos as suas próprias dificuldades. É um sistema ao mesmo tempo democrático, em que a todo mundo é igual e meritocrático, que ordena os valores.

Muitos alunos são extremamente infelizes, sentem-se humilhados, magoados. Uma relação bastante dura que é compensada por toda sua vida juvenil, por suas brincadeiras, por seus amigos.

Para muitos alunos, a situação escolar não tem nenhum sentido. É vivida como pura violência.

Uma pedagogia não é uma pura ferramenta na medida em que não há corte entre a pedagogia e a personalidade. A pedagogia é uma técnica da operacionalização da personalidade. Quando se pede a um professor para mudar o seu método, não se pede apenas que ele mude de técnica, pede-se para que ele próprio mude.

Não são mais os antigos bons alunos oriundos das boas famílias para quem a escola é uma coisa normal. Não se pode mais esperar que o sentido da situação escolar venha de fora, das famílias.

Rever os programas e as ambições de modo que os alunos não sejam colocados de entrada em situações de fracasso. Aprender menos coisas, mas, que as aprendam.

Tempo para ter certeza que eles a conheçam pois o que os faz progredir é ter superado a dificuldade.

Ver o lugar da adolescência pois o colégio é definido por um tipo de guerra fria entre adolescentes e a escola. Ter regras de vida em grupo partilhadas, que haja uma cidadania escolar. Contratos de vida comum entre os professores e os alunos, obrigações para alunos, mas também para os professores (entrega de trabalhos e de correções, recíproca em não xingar).

A situação escolar se esvazia de todo sentido nos meios populares: os alunos não acreditam que os diplomas vão permitir abandonar sua origem social; muitos alunos têm a impressão que a escola não serve para nada. Problema para além da escola, tem sobretudo a ver com mercado de trabalho. Poder-se-iam desenvolver aprendizados que pareçam mais úteis.

As contradições do sistema não são administradas e explicitadas politicamente e as pessoas as vivem como problemas individuais.

É preciso recriar um quadro normativo, mas, de modo democrático, a partir de uma definição de direitos e dos deveres, envolvendo tanto alunos como professores. Estes pedem muitas vezes um quadro disciplinar que os projeta sem obrigá-los a cooperar. Na França, cada professor, uma vez na sala, é extremamente autônomo. Os alunos estão diante de relações estilhaçadas a partir das quais tentam se virar, agir, mas eles não estão sob um quadro normativo.

As diferenças entre estabelecimentos são muito importantes. A violência escolar não é só produto da violência social. Há colégios que puderam criar sistemas, que têm a capacidade de criar civilização, e outros não. A maioria dos casos de violência contra professores, são quase sempre respostas à violência sofrida por alunos (real ou simbólica).
O quadro normativo cria, ao mesmo tempo, um sistema disciplinar rígido e um modo de expressão possível dos alunos. Quando é só disciplina, acaba explodindo ou, então, quando não há disciplina, é a rua que entra no colégio.

Mudanças na gestão do sistema: equipes coerentes precisam ser construídas. Como criar uma vida em comum em um colégio, quando os professores são nomeados pelo computador, quando eles não escolheram ir para lá?

Na França, para mudar um pequeno aspecto do funcionamento, é preciso tocar no conjunto do sistema. É tradição centralizadora, que já teve grandes virtudes. Mas mudar o modo de nomeação dos professores é uma revolução nacional.

A escola não deve se tornar um clube de vida juvenil. Mas, até um certo ponto, é preciso uma vida adolescente na escola e que não a considere como desvio. Dar um quadro a esta vida adolescente, que os alunos façam outras coisas que não seja assistir às aulas, mas, num quadro normativo, regras que os eduquem.

A escola é socializadora de fato. Inclusive quando não funciona. Não deve ser socializadora da maneira como muitos entendem na França: conservadora, volta da moral, volta da disciplina, volta dos princípios (...) Deve ser socializadora de um modo mais democrático, muito mais aberto. O debate não é permissividade e autoridade é falso. É preciso ter ao mesmo tempo autoridade e liberdade.

Nos anos 80, o colégio das Minguettes era um colégio violento, catastrófico. Chegou um diretor que disse: bom vamos fazer duas coisas simultaneamente, insisto, simultaneamente. Primeiro, vamos estabelecer uma disciplina mecânica, “estúpida”: quem brigar será expulso, quem xingar algum professor será expulso, quem roubar será expulso, portanto sem negociação. Segundo, e ao mesmo tempo, qualquer aluno que brigar, que insultar professor (...) sabemos que ele apresenta alguma dificuldade e ele terá a possibilidade de falar a respeito com os adultos. Mas isso não impede de que ele seja expulso, ele seja punido. Os alunos se deram conta de que nem tudo era possível e portanto a taxa de violência abaixou sendo que eles também podiam ser ouvidos e ajudados.

Este tipo de atitude supõe que os diretores tenham poder, que este poder seja controlado, supõe que os sindicatos não defendam sistematicamente todo o colega (...).

Esta mudança supõe menos diretrizes ministeriais do que mudanças do modo de organização. Para autonomia dos estabelecimentos, é preciso que os professores sejam cooptados num estabelecimento. Quando é nomeado por um computador, o professor diz, eu venho, faço o trabalho, o resto não é problema meu.

Porém, um professor tem uma carreira “biológica”, não recebe quando trabalha mais ou melhor, ele ganha mais à medida que fica velho. Depois de algum tempo, entendem que seu interesse é se engajar menos.

As diretrizes que dizem: é preciso se comportar desta maneira com os alunos, são ineficazes. Um professor faz o que quer na sua sala. É portanto necessário encontrar modos de organização que farão com que o trabalho seja coordenado.

Na França, formavam-se pedagogicamente os mestres da escola elementar e não se formavam professores de colégio. Os professores do secundário eram apenas definidos pelo nível de conhecimento, selecionados por concursos. Agora todos seguem uma formação pedagógica.

A profissão de docente é uma prática, ela requer um aprendizado de práticas, de experiências, de mestres de estágio, de ajuda nos momentos de dificuldades.

O ensino na França é muito normativo porque existe uma convicção muito forte entre os professores: há uma solução pedagógica para todos os problemas. Cursos sobre a violência como se aprende a ensinar as matemáticas: é um absurdo.

Os mestres de escola são claramente melhor formados porque ensinar a ler para crianças é uma profissão particular. Eu sei ler e escrever, sou incapaz de ensinar crianças a ler.

Há um grande êxito na França, pouco a pouco os mestres da escola elementar aprenderam a falar tanto para alunos como para crianças. Durante muito tempo os mestres franceses só falaram com alunos.

Há o romantismo da infância. É possível se comportar de forma relativamente brutal em relação aos adolescentes, com as crianças é diferente. A presença dos pais é muito mais forte também. A lógica seletiva é muito menos forte na escola primária, portanto aproveita-se o tempo, as pessoas são menos obcecadas pelo nível, pela performance, pelos exames de fim de ano.

A escola maternal muito bem administrou a idéia de socialização infantil e de um pré-aprendizado escolar. Confiam-se crianças de dois anos a gente qualificada, tão qualificada quanto qualquer outro professor.

O aprendizado dos alunos de colégio tem a ver com seu apego aos professores. Psicologicamente, os alunos de colégio não estão em condições de distinguir o interesse pela disciplina do interesse por aquele que ensina a disciplina. É preciso uma forte maturidade intelectual.

Esta observação é confirmada pelos alunos cujas notas variam sensivelmente em função dos professores na mesma disciplina.

Não se sabe o que determina o efeito professor. Há os que ensinam muitas coisas a muitos alunos, os que ensinam muitas coisas há alguns alunos, e os que ensinam nada a nenhum aluno.

O único elemento que parece desempenhar um papel é o efeito pigmaleão, isto é os professores mais eficiente são em geral aqueles que acreditam que os alunos podem progredir, aqueles que têm confiança nos alunos. Os mais eficientes são também professores que veem os alunos como eles são, partem do nível em que estão e não aqueles que não param de medir a diferença entre aluno ideal e o aluno de sua sala.

Mas, nas atitudes particulares, entram também orientações culturais gerais, interesses sociais, tipos de recrutamento e de formação. Não são apenas problemas psicológicos.

  • Panelinhas
Exemplos de indisciplina de estudantes, que tenham presenciado ou vivido em uma escola de educação básica. Como as pessoas adultas reagiram?

  • Panelão
Apresentação dos resultados das panelinhas e palavra aberta

Aula 11 9 de maio de 2019 Noite Opinião

Para a Aula 12 16 de maio de 2019 Sociologia clássica e educação: Parsons e Apresentação de ideias de pesquisa Grupo 1, Grupo 2, Grupo 3 e Grupo 4

ABRAMO, P. Pesquisa em ciências sociais. In: HIRANO, S (Org.). Pesquisa social: projeto e planejamento. São Paulo: T. A. Queiroz, 1979, p.19-87. (Galerias de Arquivos: ABRAMOpesquisaEmCienciasSociais1979)

BORGES, Rudnei. Talcott Parsons e a configuração do estrutural-funcionalismo. Parâmetro: Cultura e Sociedade, 2011. https://revistaparametro.wordpress.com/2011/04/16/talcott-parsons-e-a-configuracao-do-estrutural-funcionalismo/

PARSONS, Talcott. Orientações teóricas. In: O sistema das sociedades modernas. Tradução de Dante Moreira Leite. São Paulo: Pioneira, 1974. p. 15-22 - “Sistemas de ação e sistemas sociais”; “O conceito de sociedade” – (Galerias de Arquivos: PARSONSorientacoesTeoricas)