Carregando...
 

Aula 14 13 de junho de 2019 noite

Sociologia da Educação I 2019103 Noite prof Elie Ghanem

Aula 14 13 de junho de 2019 A escola da comunicação e Apresentação de ideias de pesquisa Grupo 7


  • Leitura individual prévia
TOURAINE, Alain. A escola da comunicação. In: Poderemos viver juntos?: iguais e diferentes. Tradução de Jaime A. Clasen e Ephraim F. Alves. Petrópolis: Vozes, 1999. p. 328-346

Esquema do texto

A escola da comunicação


A escola se define pelos conhecimentos que transmite, cujo aproveitamento ela mesma avalia pelos exames.

A escola estava não centrada no seu público, mas na sociedade (valores, normas, hierarquias, práticas que constituem a ordem social). Pretendia formar a criança transformando-a num ser social.

A escola do sujeito e da comunicação é rejeitada pelos professores e pais (medo da desordem incontrolável das relações afetivas e de desaparecer a missão de ensinar e preparar para exames que abrem as portas para o emprego).

A escola do sujeito e da comunicação é maneira hipócrita de reintroduzir e justificar as desigualdades sociais na escola?

As crianças melhor integradas em sua família ou em seu meio têm maiores garantias de futuro, estão mais disponíveis para atividades educativas que dão maior importância à comunicação do que aos conhecimentos ensinados. Verdade e falsidade, observações e preconceitos.

Na França, a escola republicana separava os filhos do povo dos filhos da burguesia: consagrava-se à transmissão dos conhecimentos fingindo ignorar uma segregação social à qual se adaptava. Ela ministrava aos filhos das classes populares um ensino concreto e aos filhos da burguesia conhecimentos mais abstratos que simbolizavam o seu status social superior.

O corte entre a cultura escolar e os problemas privados constitui um fator de desigualização: pois os alunos que vivem nas situações mais difíceis teriam mais necessidade de que a escola os ajudasse.

A redução da educação à instrução pública, baseada na transmissão de conhecimentos e na aquisição de disciplinas, teve como missão histórica principal tornar-se a ideologia duma nova burguesia.

A massificação do ensino provocou a implosão de um sistema que tratava de socializar, isto é, preparar as crianças para entrarem numa sociedade, também ela, hierarquizada.

Quando se decompõe a escola da socialização, é preciso apelar para a escola do sujeito (e da comunicação).

Quanto menos a escola é definida pelos profissionais que lança no mercado de trabalho, tanto mais ela deve ser definida como um grupo identificado pelas comunicações que se estabelecem entre discentes e docentes e também entre estes e os responsáveis administrativos do estabelecimento.

Os resultados da escola, classicamente mensurados em termos da evasão escolar, das repetências ou dos resultados médios nos exames, dependem em boa parte do estado dessas comunicações.

Se os professores não querem definir-se a não ser pela disciplina que lecionam, se não refletem em grupo sobre os problemas da classe em que lecionam e do conjunto da escola em que trabalham, os resultados dos alunos são menos bons do que se os professores estabelecessem comunicações ativas entre si, com os seus alunos e com os responsáveis administrativos.

A escola ainda se assemelha, na maioria das vezes, a uma oficina administrada segundo os métodos tayloristas: o professor pensa que conhece a única maneira boa de ensinar, que consiste em fazer compreender uma verdade objetiva, ao passo que os outros aspectos da vida dos alunos se manifestam pelo jogo, pela algazarra coletiva, pelo sonho acordado, pelo fracasso escolar ou ainda pelo suicídio.

Os alunos enfrentam o mestre, que encarna a autoridade, e representa a sociedade. Esta relação é geralmente aceita nos primeiros anos escolares, quando o modelo predominante de referência é o da família, mas não é mais aceito na adolescência, até desaparecer nos primeiros anos da universidade.

Os estudantes veem este desaparecimento como o sinal da sua entrada no mundo adulto.

O fim daquela relação revela a incapacidade do sistema de ensino de organizar outro tipo de comunicação diferente do modelo familiar, na escola primária.

Nas escolas com crianças de nível social mais baixo, é mais urgente passar para a escola da comunicação, pois a violência explode e destrói a instituição que não funciona como uma rede de comunicações. Diante dum ato de violência, cuja origem tanto pode ser externa como interna, a escola resiste quando a sua rede interna de comunicações é forte; mas ela implode se cada um, e em primeiro lugar cada professor, se refugia na sua esfera profissional.

Alegam que não foram preparados para ser educadores, assistentes sociais ou psicólogos, e que não foi também a sua escolha pessoal, que visava, dizem eles, um domínio de conhecimento. Eles gostavam de história ou de matemática, e acreditavam que era desejável ou aceitável lecionar essas matérias. Essa reação sincera revela com a maior crueza o esgotamento de um modelo de educação e a ausência daquele que deveria substituí-lo.

A situação escolar, em particular nas categorias sociais e nas áreas menos favorecidas, degrada-se tão rapidamente que predominam as reações defensivas, sendo a principal descartar os casos difíceis e consolidar a homogeneidade social da escola.

As medidas que visam isolar os casos difíceis - e que não se devem rejeitar a priori - são aceitas com inquietante boa vontade pelos professores e pelos pais que não ignoram, no entanto, os riscos de marginalizar as crianças em crise e que pertencem, na maioria dos casos, a meios enfraquecidos pelo empobrecimento, o desemprego e o isolamento cultural.

Muitos consideram inoportuno fazer reivindicações em prol da heterogeneidade social e cultural das escolas. Mas, uma cidade não é viva se não convivem nela lado a lado e se comunicam populações diferentes. Deve também a escola ser um lugar privilegiado de comunicações interculturais.

Nos países onde as distâncias sociais são muito grandes e onde predomina a ideologia liberal, que considera o mercado um modelo aplicável a todas as atividades sociais, as escolas privadas se encarregam das crianças das classes média e superior, e estabelece-se entre elas uma hierarquia social que se traduz concretamente pelo preço dos estudos.

A escola pública, que muitas vezes obtivera resultados brilhantes, particularmente na América Latina, passa a ser a escola dos pobres, também dos professores pobres.

A escola pública, mesmo que nunca seja na verdade a escola de todos e tenha durante muito tempo mantido separadas as crianças das diferentes classes sociais, pode, melhor do que as escolas privadas e muito melhor do que as escolas comunitárias, tornar-se lugar de integração social e de comunicação intercultural. Com esta condição: renunciando à concepção sociocêntrica da educação e aceitando individualizar as relações com os alunos.

A escola procura adaptar-se às tendências dominantes da sociedade, isto é, nos países industrializados, adaptar-se ao mundo dos empregados, técnicos e funcionários, que são a maioria da população. Tende a excluir aqueles que vêm de meios diferentes, em particular mais baixos, e que têm dificuldade para suportar a preparação para um tipo de emprego e de vida ao qual têm poucas oportunidades de ter acesso. O que leva ao seguinte paradoxo: o prolongamento do ensino obrigatório e gratuito pode ter como resultado o aumento da desigualdade social.

A escola deve ser mais orientada para os alunos do que para as necessidades da sociedade, em geral descritas em termos ideológicos, aos quais os alunos devem adaptar-se.

Uma escola da comunicação deve conceder importância particular tanto à capacidade de se exprimir, oralmente ou por escrito, como também à habilidade para compreender as mensagens escritas ou orais. O outro não é percebido e compreendido por um ato de simpatia; ele o é pela compreensão daquilo que diz, pensa e sente, e pela capacidade de dialogar com ele.

Que a escola leve os alunos a dialogar, ensine-os a argumentar um contra o outro, analisando o discurso do outro, ao mesmo tempo para aprender a manejar a língua nacional e para se tornar capaz de perceber o outro, que é a condição de uma vida em comum.

Nós pensamos geralmente que a comunicação exige que separemos a mensagem a transmitir do seu contexto particular, ao mesmo tempo histórico, geográfico ou individual, e que formalizemos o mais possível essa mensagem.

É preciso um caminho inverso: deve-se associar a mensagem a uma disposição para agir.

A escola continuará lugar de aquisição de conhecimentos e de formas de raciocínio. O conhecimento científico, em particular, tem duas razões para ocupar um lugar importante na escola: 1) permite que o próprio aluno verifique o seu trabalho, aprenda a distinguir o verdadeiro do falso, garanta a coerência dos seus enunciados; 2) o método científico é o melhor baluarte contra o arbítrio do poder ou da tradição comunitária e, por conseguinte, permite a comunicação num mundo que se tranca e se isola na experiência privada.

O saber positivo oferece uma garantia de liberdade tanto ao corpo docente como ao corpo discente. Mas não se deve deixar que essa ideia forte oculte os outros problemas da escola e a necessidade de melhor defender a liberdade e a criatividade daqueles que ela educa.

Que a escola e a universidade se questionem sobre o papel social da ciência e, ao mesmo tempo, mobilizem todas as motivações e a imaginação daquele que se instrui, para fazê-lo realizar as operações científicas ou técnicas. Tão importante como o conhecimento científico, que vai descobrir as leis da natureza, é o saber interpretativo, o das ciências humanas, que tem como alvo os comportamentos intencionais.

Que se ofereça aos alunos uma pluralidade de opções de carreiras: que, em cada uma destas, sejam associados método científico e análise das práticas sociais e culturais, e sobretudo que nenhuma carreira acadêmica seja identificada com o recrutamento das elites, o que acarretaria uma desvalorização das outras e a obrigação para muitos jovens de seguir uma carreira que não corresponderia a seus gostos.

Ensinar a decifrar todas as linguagens sociais, desde aquelas do urbanismo ou da ação administrativa até as da pesquisa científica e da tecnologia.

Ensinar a ler os meios de comunicação de massa, sobretudo a televisão, cuja fraqueza principal é a tendência à descontextualização das mensagens. Em vez de opor a explicação dos textos escolares a programas de televisão, tratar certas imagens e certos textos de rádio, cinema ou televisão como documentos cujo conteúdo se procuraria explicitar e avaliar.

Comunicação intercultural: discernir as convergências e divergências entre as interpretações que pessoas de culturas diferentes dão aos mesmos documentos ou aos mesmos acontecimentos. Comissão da UNESCO (Delors): "Trata-se de aprender a viver juntos desenvolvendo o conhecimento dos outros, da sua história, das suas tradições e sua espiritualidade. E, a partir daí, criar um espírito novo que, graças precisamente a essa percepção das nossas sempre maiores interdependências, a uma análise partilhada dos riscos e desafios do futuro, leve à realização de projetos comuns ou então a uma gestão inteligente e pacífica dos inevitáveis conflitos".

O sentido de uma escola do sujeito: compreender o outro na sua cultura, isto é, no seu esforço para ligar identidade e instrumentalidade numa concepção do sujeito. Para estabelecer a comunicação, deve-se compreender os atores enquanto atores e estudar os seus atos de linguagem. Como adverte Jürgen Habermas, aprender a argumentar de modo a destacar em cada mensagem aquilo que traz em si de universalizável.

A escola não ajuda suficientemente os seus alunos ou estudantes a perceberem e compreenderem as diferenças entre rapazes e moças. A imensa área das relações afetivas e sexuais entre jovens se reduz a uns poucos conselhos sobre o uso dos preservativos, como se apenas interessasse à escola na medida em que pode acarretar um problema de saúde ou social.

Os jovens não aprendem na escola a compreender e analisar as relações entre pais e filhos e a formação da personalidade.

Problemas relativos à família, à sexualidade, às relações interculturais, ao conhecimento histórico, à comunicação interpessoal, ao próprio ato de se comunicar deveriam ser matéria de ensino, em todos os níveis.

Acrescentar o conhecimento das motivações, da situação social, dos projetos, da origem cultural daqueles que não são apenas alunos ou aprendizes, mas antes de tudo indivíduos que, no início da vida, têm um enorme desejo de se comportarem como sujeitos, de agirem em conformidade com projetos, de estabelecerem laços entre a sua personalidade e o campo social e econômico em que vão intervir.

Não basta acrescentar à formação docente cursos sobre a psicologia da criança e sobre aquilo que se chama, com um termo pouco preciso, de ciências da educação. O mais importante é ampliar e transformar uma escola de programas, para torná-la uma escola da comunicação.

Acusações superficiais: importância concedida à relação entre o educador e o educando é uma forma de submissão do aluno ou do estudante ao controle social, ao conteúdo social, e não intelectual ou cultural da mensagem escolar.; opor-se à profissionalização dos estudos e contrapor-lhe a cultura geral, para evitar que os jovens sejam submetidos ao poder econômico; vínculo mais estreito entre a escola e o mundo econômico para lutar contra uma cultura escolar arcaica; a aprendizagem dos conhecimentos é um jogo, os alunos e os estudantes devem ser guiados pela busca do próprio prazer.

Deve-se necessariamente opor a mensagem e a sua comunicação? Ou seja, ter a preocupação de ensinar (comunicar) sem preocupar-se com as características pessoais e sociais do receptor?

Se o importante for reforçar a capacidade de livre ação do discente, há duas grandes conseqüências: preocupar-se ao menos tanto com o aluno, em qualquer idade, como com a "matéria" que se quer ensinar; a aprendizagem não pode acontecer sem algum trabalho e esforço do aprendiz que lhe dão uma capacidade de iniciativa que poderá aplicar depois a outros domínios.

Conservemos da ideia da Bildung: a educação não deve ser uma socialização, mas a formação de uma capacidade para agir e pensar em nome de uma liberdade criadora pessoal que não pode desenvolver-se sem contato direto com as construções intelectuais, técnicas e morais do presente e do passado.

Como a subjetivação se acha nos opositores do "consumismo" individualista, ela se alimenta melhor de criação cultural do que de atos de conformação a programas ou a uma definição econômica ou administrativa das profissões.

Para evitar que aumente a desigualdade social na escola e se agrave ainda mais a crise da vida escolar nos bairros desfavorecidos, é necessário ajudar os professores a não se refugiarem por trás do prestígio da sua disciplina para se protegerem dos alunos que provêm dum meio social e cultural que vivenciam como inferior ou perigoso.

Muitos já reconhecem que os resultados da escola dependem antes de tudo da qualidade das relações entre o corpo docente e o corpo discente, qualidade que não se obtém baixando o nível do saber transmitido.

Para isso, a escola tem que ser dirigida por si mesma, e não mais por um serviço administrativo ou pelo mercado de trabalho.

Cabe aos professores, em primeiro lugar, implementar o sistema de comunicação em pauta.
Enquanto a escola for definida pela sua função de socialização, concebe-se que a sua organização e as suas normas sejam definidas pela "sociedade", de fato por uma administração.

Se o centro da escola não for a sociedade e sim os sujeitos individuais, seu funcionamento deverá ser decidido por aqueles que ensinam e por aqueles que são ensinados, por aqueles que vivem na escola uma grande parte da vida ou estão ali preparando o seu futuro pessoal.

Os alunos só podem ser parcialmente representados pelos pais para participar de modo responsável na organização da sua vida escolar, e portanto do próprio ensino.

Uma escola deve ser uma equipe docente formada graças à iniciativa dum responsável e por escolha mútua, e essa equipe deve estabelecer com as autoridades os termos de um contrato que leve em conta as condições concretas em que vai desenvolver o seu trabalho.

Não se podem introduzir transformações culturais tão profundas de uma só vez, mediante uma reforma ou um texto de lei; elas devem ser lançadas por iniciativas e inovações a princípio limitadas.

Hoje, que se multiplicam fracassos e dificuldades, tais mudanças serão talvez melhor aceitas do que ontem?

  • Panelinhas
Perguntas sobre Touraine Escola da comunicação

  • Panelão
Palavra aberta

Aula 14 13 de junho de 2019 Noite Opinião

Para a Aula 15 24 de junho de 2019 Educação como desafio às sociologias pós-clássicas e Avaliação geral na disciplina


ABRAMO, P. Pesquisa em ciências sociais. In: HIRANO, S (Org.). Pesquisa social: projeto e planejamento. São Paulo: T. A. Queiroz, 1979, p.19-87. (Galerias de Arquivos: ABRAMOpesquisaEmCienciasSociais1979)

DUBET, François. A idéia de sociedade. In: Sociologia da experiência. Tradução de Fernando Tomaz. Lisboa: Instituto Piaget, 1994. p. 41-50 . A sociedade é identificada com a modernidade; A sociedade é um estado nacional; A sociedade é um sistema; A sociedade é um conflito regulado. <Galerias de Arquivos: DUBETideiaDeSociedade>

GHANEM, E. Que avaliação vale na educação escolar?. In: Maria Beatriz Luce; Isabel Letícia Pedroso de Medeiros. (Org.). Gestão escolar democrática: concepções e vivências. UFRGS, 2006, p. 157-160 (Galerias de Arquivos: GHANEMqueAvaliacaoVale)